8. ARTES E ESPETCULOS 4.9.13

1. LIVROS - PASTORAL AMERICANA
2. MSICA  S QUEM PODE ME LIBERTAR SOU EU
3. MSICA  CRESCEU E APARECEU
4. CINEMA  DE SEGUNDA CATEGORIA
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. J.R. GUZZO  UM DEVER MORAL

1. LIVROS - PASTORAL AMERICANA
Uma bela biografia de Rin Tin Tin, astro animal do cinema e da TV no sculo XX, mostra como um co foi capaz de encarnar um ideal de civilizao.
MARCELO MARTHE

     No processo de divrcio movido pela primeira mulher de Lee Duncan, um cachorro aparecia como corru  papel costumeiramente reservado s amantes. A esposa queixosa alegava que no conseguia competir com o bicho pela ateno do marido. Nos anos 1920, seria impossvel rivalizar com o pastor-alemo Rin Tin Tin. Estrela dos primrdios de Hollywood, ele foi protagonista de 23 filmes mudos de sucesso. Abocanhava um salrio oito vezes mais alto que o dos astros humanos do perodo. Graas a Rin Tin Tin, a Warner se transformou de estdio de fundo de quintal em superpotncia. Lee Duncan (1893-1960), seu dono e treinador, converteu-se de rfo pobre em milionrio extravagante. A foto ao lado ajuda a entender a razo do triunfo. Mesmo num retrato to desbotado pelo tempo, o co conserva o carisma que fez sua fama: com expresso terna e desarmada, parece um perfeito bom moo diante da criana. Em 1932, as rdios dos Estados Unidos interromperam a programao para anunciar a morte do cachorro, aos 14 anos. Mas o personagem no morreu: nos anos 1950, ele ressuscitaria num universo novo, a televiso. O seriado As Aventuras de Rin Tin Tin marcou as geraes que viveram sua infncia at o fim dos anos 1970, inclusive no Brasil. Todos os que j dobraram a casa dos 40 anos sabem o que era um Forte Apache, brinquedo derivado do programa. A americana Susan Orlean era criana nos tempos do velho seriado. H dez anos, quando iniciava as pesquisas para um livro sobre os animais do cinema, a redatora da revista The New Yorker foi tocada pela lembrana do personagem  e resolveu escrever s sobre ele. Alto l, leitor clico que ameaa debandar: Rin Tin Tin  A Vida e a Lenda (traduo de Pedro Jorgensen Jr.; Valentina; 296 pginas; 44,90 reais) no acena com a contemplao nostlgica. A autora se vale da histria do co-celebridade para ilustrar as mudanas na vida humana, na relao das pessoas com os bichos e na noo de entretenimento do comeo do sculo XX para c. 
     A fora de Rin Tin Tin vinha do fato de ele no ser mero personagem. Era um co real com uma histria extraordinria  que Lee Duncan tratou de dourar com detalhes de comprovao difcil. Abandonado num orfanato pela me dos 6 aos 9 anos, Duncan foi um solitrio que se agarrou aos bichos. Em 1918, quando combatia na I Guerra, encontrou um canil do Exrcito alemo num lugarejo francs arrasado por um bombardeio. Entre os ces mortos, ele achou uma fmea com cinco filhotes, todos vivos. Duncan ficou com um casal de cezinhos, que ganharam o nome dos bonecos carregados pelos soldados franceses como talisms: Rin Tin Tin e Nanette. A cadela morreu cedo. O co sobrevivente fez histria. 
     Rin Tin Tin no foi uma exceo animal na Hollywood dos anos 1920. Mais de cinquenta cachorros trabalharam nos filmes mudos americanos. "A inveno do cinema ocorreu no momento em que os americanos se mudavam do campo para as cidades e os animais viraram uma doce lembrana de outra poca. A capacidade de se emocionar com os bichos passou a ser sinal de humanidade", disse Susan Orlean a VEJA. Uma obsesso de Duncan contribuiu para Rin Tin Tin se tornar o nico astro canino do perodo a ter encanto duradouro. A histria de superao na orfandade foi tema recorrente nos seus firmes. Tambm dava norte ao seriado dos anos 1950: sobreviventes de uma guerra com os ndios, ele e o menino Rusty foram adotados por um regimento da Cavalaria americana. O Rin Tin Tin original espantava as audincias ao subir em rvores e saltar abismos. E era um ator de recursos, digamos, clssicos: as pessoas ficavam bobas de ver como ele expressava emoes e se portava com mais naturalidade que os atores afetados do cinema mudo. Alm de serem caoados por isso, os humanos do elenco sofriam bullying no set: apesar de obediente ao dono, o astro era temperamental e rosnava para todos. 
     Duncan tentou repetir o feito com Rin Tin Tin Jnior, mas o herdeiro biolgico era desajeitado. A mesma falta de brilho acometeu Rin Tin Tin III  pastor-alemo de pelagem mais clara, que talvez nem tenha sido parente do original. Quando o projeto do seriado recolocou o personagem em voga, o Rin Tin Tin IV servia s de garoto-propaganda. Era to burro que outro co foi escalado para o papel. Lassie, a rival meiga de Rin Tin Tin nos anos 1950, tambm tinha suas imposturas: era uma fmea collie na fico  mas, na prtica, foi vivida por machos. Duncan no ligava mais para a autenticidade de seu astro. Ele sabia que Rin Tin Tin havia deixado de ser s um cachorro. Para alm da bravura e da lealdade, ele materializava uma ideia cara ao esprito americano: a de que o progresso e a justia se fazem pela afirmao do indivduo. No raro, Rin Tin Tin ia contra seu bando em nome de objetivos nobres. 
     A transformao de Rin Tin Tin numa relquia antiquada teve a ver com certa mudana de humor dos americanos. A amizade inocente do co e do menino celebrada no seriado j no cabia na pauta contestadora que foi se impondo a partir do fim dos anos 1950. A maldio se estendeu ao ator que fazia Rusty, Lee Aaker: ele nunca mais fez um papel relevante. Na dcada seguinte, um fato poltico comprometeria de vez a moral dos pastores-alemes: as imagens dos ces ferozes usados pela polcia para reprimir manifestaes pelos direitos civis. No cinema e na TV, Rin Tin Tin foi atingido ainda por outra mudana irresistvel: os efeitos especiais tornaram suas faanhas banais. Os bichos passaram, no mais das vezes, a ter papis cmicos. Enquanto o mundo mudava, as pessoas que se julgavam herdeiras de Duncan se engalfinhavam em disputas sem fim nos tribunais. A autora constata que a fixao em defender seu legado produziu figuras meio doidas e melanclicas. At ela se sentiu assim, a certa altura de sua pesquisa. "Se algum vinha comparar Rin Tin Tin com Lassie, eu virava uma fera", diz. Essa paixo rendeu um belo livro.


2. MSICA  S QUEM PODE ME LIBERTAR SOU EU
Assim cantava o compositor Taiguara em um disco censurado em 1976  e que agora, relanado em CD, mostra uma qualidade que pouco tem a ver com a poltica.

     Censurada pela ditadura, Pra No Dizer que No Falei das Flores, de Geraldo Vandr, foi regravada por Simone em 1979 e teve uma sobrevida nos protestos dos caras-pintadas contra Collor, em 1992. Hoje, porm, tem importncia mais arqueolgica do que artstica. O prprio Chico Buarque recentemente se ops  remontagem de Roda Viva, espetculo teatral proibido nos anos de chumbo, por julgar que o passar dos anos tornou evidentes as falhas dramatrgicas do musical. Censura, portanto, no vale como selo de qualidade. Que Imyra Tayra Ipy, disco de 1976 do cantor Taiguara, tenha sido recolhido das lojas por determinao da ditadura  s uma circunstncia estupidamente infeliz. O fato essencial  que se trata de um belssimo trabalho, hoje finalmente relanado, em CD, pelo selo Kuarup, distribudo pela Sony Music. 
     O disco tornou-se uma raridade nas lojas virtuais, onde sua verso em LP custa cerca de 130 reais. Uma edio japonesa de 2004, em CD, chegava a 350 reais. Passados 37 anos, Imyra Tayra Ipy encanta pela criatividade dos arranjos de Hermeto Paschoal, pela excelncia do time de instrumentistas (que trazia, entre outros, o maestro Wagner Tiso, o guitarrista Toninho Horta, o violoncelista Jaques Morelembaum e o saxofonista Nivaldo Ornelas) e, acima de tudo, pelo talento de Taiguara como compositor e intrprete. 
     Nascido em Montevidu, Taiguara Chalar (1945-1996) era visado pelos rgos de represso por causa de sua militncia no PCB de Lus Carlos Prestes. Teve 68 composies censuradas. O Servio Nacional de Informao (SNI) vigiava suas atividades, anotando, por exemplo, uma visita  casa do cantor Agnaldo Timteo, ou sua participao numa rifa que sortearia duas passagens para ver a Olimpada em Moscou. Em 1975, quando iniciou as gravaes de Imyra Tayra Ipy, Taiguara voltava ao Brasil depois de dois anos de exlio em Londres. O disco, desde o ttulo de inspirao indgena, carregava um nativismo latino-americano prprio da poca. Mas o cantor foi perseguido sobretudo por sua filiao poltica: a msica passa longe do panfletarismo xaroposo de um Vandr. As crticas so sempre veladas: "Como  que voc resolveu que sou livre agora / Voc esqueceu que s quem pode me libertar sou eu?" (Situao), ou "A minha amada amordaada / De amor forado a se calar..." (Terra das Palmeiras). A proibio do disco espanta at quem participou dele: ''Foi censurado, ? Sabe que o Taiguara nunca me contou?", diz Hermeto Paschoal. E quase to grave quanto a censura  o fato de um disco da qualidade de Imyra Tayra Ipy ter passado tantos anos no ostracismo. 
SRGIO MARTINS


3. MSICA  CRESCEU E APARECEU
Na guerra cruenta pelo posto de cantora pop mais relevante do momento, Miley Cyras ofuscou as concorrentes em um show da MTV  mas pelo escndalo, no pelo talento.
SRGIO MARTINS

     No ar h quase trs dcadas, o Video Music Awards, da MTV,  uma das principais premiaes do showbiz americano. E to ou mais importante do que a disputa pelo prmio de melhor videoclipe do ano  a corrida para ver quem faz a apresentao mais impactante no palco da cerimnia. A premiao do domingo, dia 25, teve shows espetaculosos de trs artistas que se enfrentam no renhido mercado das cantoras pop: Lady Gaga, Katy Perry e Miley Cyrus usaram o VMA como plataforma de lanamento de seus novos discos, que sairo nos prximos meses. Ex-estrela de uma srie bobinha da Disney  Hannah Montana  que ainda briga para se firmar no pop de gente grande, Miley Cyrus venceu as duas concorrentes em repercusso. Pouco se falou da nova roupa esquisita de Lady Gaga ou do calo de boxeadora de Katy Perry: comentou-se apenas o espetculo burlesco de Miley. S que Miley errou o tom, e errou feio: a coreografia que devia ser ertica descambou na franca vulgaridade. E, pior, em uma vulgaridade bem ridcula. 
     Em um mai com estampa de ursinho, Miley entrou em cena com We Don't Stop, single do disco Bangerz, a ser lanado em outubro. E de imediato estendeu a lngua para fora, como se estivesse se candidatando a substituir Gene Simmons no Kiss. Mas o momento para fazer corar at as "preparadas" do funk carioca veio depois, quando ela se uniu a Robin Thicke para interpretar Blurred Lines, sucesso do cantor. Com um traje mnimo, Miley esfregou-se acintosamente em Thicke, que respondeu com animao ao balano carinhoso da moa. E l estava ela de novo com a lngua de fora, feito um perdigueiro sedento. Miley ainda transformou um dedo de espuma, daqueles que os torcedores de futebol americano costumam levar aos estdios, num objeto flico. A dupla de cantores eletrizou as redes sociais: a apario de Miley e Thicke rendeu 306.000 tutes por minuto, um pouco menos do que o pico da eleio para presidente dos Estados Unidos, de 327.000 tutes por minuto. Nos sites de vdeo, as esfregaes da dupla tiveram mais de 15 milhes de acessos. A imagem de Miley curvada e com a lngua de fora tornou-se um "meme" nas redes sociais  foi inserida, por exemplo, em obras-primas da pintura, como O Grito, de Munch. O escndalo levou uma entidade que monitora abusos morais na televiso americana a protestar  e o irnico  que essa associao, o Parents Television Council, tem entre seus membros o pai de Miley, o cantor country Billy Ray Cyrus. Que, em algum estranho estado de desconexo com a realidade, pedia paz mundial nas redes sociais no momento em que sua filha rebolava em frente a Robin Thicke. 
     Na comparao, as cantoras concorrentes apresentaram mais do mesmo, ou mais do morno. Lady Gaga, que lana ArtPop em novembro e j apareceu no VMA trajando um vestido feito de carne, desta vez entrou com uma espcie de hbito de freira hipster  ela nunca abandona a antiquada pretenso de ser uma artista de vanguarda , mas acabou se despindo para ficar de fio-dental. Tmido, no? Katy Perry, cujo PRISM tem lanamento previsto para outubro, cantou dentro de um ringue improvisado  mas quem se lembra disso? Vistas no detalhe, Lady Gaga e Katy Perry so artistas muito diferentes, tanto na ambio quanto no talento (Lady Gaga canta de verdade). Mas as cantoras pop hoje parecem se fundir todas na mesma indistino: msica animada mas pouco memorvel, coreografia com danarinos malhados, muito cenrio e pouca roupa. Pelo excesso, Miley Cyrus arrancou-se brevemente dessa pasmaceira. Quem viu o VMA lembra dela (no necessariamente de sua msica). 
     Pelo menos o recado publicitrio est dado: as trs divas lanaram os singles com os quais pretendem dominar o  pop de 2013. Se algum conseguiu assistir  cerimnia do VMA apenas do ponto de vista artstico, porm, ter eleito um quarto artista como o destaque da noite. Em uma apresentao de cerca de quinze minutos, o cantor Justin Timberlake, que lana a segunda parte do lbum The 20/20 Experience no fim de setembro  e que antes disso estar no Rock in Rio , superou o trio de divas (e, mais tarde, ainda foi elegante ao comentar o episdio Miley Cyrus: disse que a ex-Hannah Montana est tentando crescer). Principalmente porque ele tem de sobra algo que est faltando nos singles de trabalho de Gaga, Katy e Miley: musicalidade.


4. CINEMA  DE SEGUNDA CATEGORIA
Piegas e infestada de clichs, a primeira cinebiografia de Steve Jobs fica muito distante da elegncia e da eficincia que o personagem-ttulo imprimiu em suas criaes.
MARIO MENDES

     Apesar do tom entre triunfal e piegas usado pelo diretor Joshua Mark Stern para incensar vida e obra do maior inovador e guru da era digital, Jobs (Estados Unidos, 2013), que estreia nesta sexta-feira em todo o pas, no faz jus aos princpios e padres de excelncia que deram fama ao americano Steve Jobs (1955-2011) e lhe garantiram um lugar na histria da tecnologia. O filme parece antiquado, repisando lugares-comuns tpicos das cinebiografias produzidas pela velha Hollywood. No falta nem aquele momento exttico em que o protagonista sofre a experincia transcendental que acende a fasca do gnio. Aqui, a epifania se d ainda na universidade, quando o jovem Steve Jobs (Ashton Kutcher) embarca em uma viagem de LSD e sai andando por campos de trigo  e ento suas vises de futuro se descortinam ao som de um dos Concertos de Brandemburgo, de Bach. Para usar a expresso com que o prprio Jobs gostava de classificar os produtos da concorrncia  no caso, a Microsoft do rival Bill Gates , este  um filme "de segunda categoria". 
     Jobs centra-se nos eventos que vo de 1971 a 2000, mostrando o protagonista em vrias encarnaes: o aluno rebelde, o funcionrio hippie (e avesso a banhos) da companhia de jogos Atari, o visionrio ambicioso que criou a Apple com amigos na garagem da casa dos pais, o superexecutivo que  trado pelos pares gananciosos mas depois volta em grande estilo  empresa que fundou. Sim, h fatos desabonadores que revelam um homem cruel e tirnico. Ele abandona e humilha a namorada grvida e durante anos no reconhece a filha legalmente. Quando a Apple  um sucesso financeiro, recusa-se a compartilhar as aes da empresa com alguns dos fundadores por acreditar que eles no se esforaram o suficiente. Mas a essa altura sua aura de prestidigitador de maravilhas  reluzente a ponto de transformar deslizes de carter em meras idiossincrasias. 
     A mdia dos desempenhos colabora para que o resultado final no alcance o nvel de sedutora simplicidade e eficincia de um produto Apple  mas, ainda bem, o filme tampouco se converte em comercial da marca, como Os Estagirios faz com o Google (leia crtica ao lado). Kutcher impressiona  primeira vista, quando aparece como um Jobs abatido pela doena durante a apresentao pblica do iPod. O desenrolar do filme deixa claro que o mrito  da caracterizao  maquiagem, figurino e uma dieta  base de frutas a que o ator se submeteu  mais do que da interpretao. Um crtico americano chegou a definir o desempenho do ator como "uma apresentao em PowerPoint". Cabe a Josh Gad  que faz Steve Wozniak, scio e melhor amigo de Jobs  a atuao mais sincera do elenco. 
     Como um personagem da envergadura de Steve Jobs no se esgota em um nico livro ou filme, j existe outra produo em andamento. Desta vez o roteiro  de Aaron Sorkin  vencedor do Oscar por A Rede Social . adaptado da festejada biografia de Walter Isaacson. A partir do que se v em Jobs, pode-se especular que o biografado no ficaria satisfeito com nenhum dos filmes. A ltima palavra sempre tinha que ser a dele. Steve Jobs, o profeta do Vale do Silcio.

UMA COMDIA PROMOCIONAL
Billy (Vince Vaughn) e Nick (Owen Wilson) vendem relgios. So bons no que fazem, mas no adianta: relgios, que ironia, tornaram-se anacrnicos. Na loja onde trabalham, at a secretria do chefe, uma senhora de 75 anos, prefere consultar as horas no smartphone. Quando os amigos perdem o emprego, Nick, sozinho, tenta a sorte no comrcio de colches, at que Billy lhe sugere uma guinada na carreira. Os dois se inscrevem no programa de estgio do Google, ainda que tenham idade um tanto superior  mdia dos postulantes. Uma improvisada entrevista abre para a dupla os portes de um paraso corporativo: gente bonita e sorridente por todo lado, bicicletas coloridas como meio de locomoo e uma oferta ilimitada dos mais diversos tipos de comida nos restaurantes da empresa, sem teto para o consumo. Para relaxar, h redes instaladas nos escritrios. Pelo cmpus do Google, em Mountain View, na Califrnia, circula um carro sem motorista. Nos prdios,  possvel descer de um andar para o outro deslizando em um tobog. Os Estagirios (The Internship, Estados Unidos, 2013), desde sexta-feira em cartaz no pas, retrata a sede do gigante da internet como uma espcie de parque de diverses para adultos. S quem no se diverte  o espectador. No lugar de uma comdia, o que ele encontra  uma campanha publicitria. Ou, pior, um filme institucional. O argumento de Os Estagirios foi concebido por Vaughn, que j atuou ao lado de Wilson em Penetras Bons de Bico. O ator teve a ideia depois de ver uma reportagem do programa 60 Minutes sobre o ambiente de trabalho no Google. No, dizem os envolvidos, a empresa no botou dinheiro no filme. Mas analisou com lupa cada frase do roteiro  vetou uma cena que mostrava um acidente com o carro sem condutor. "Ns nos envolvemos na produo porque a cincia da computao costuma ter problemas de marketing", declarou Larry Page, um dos criadores do Google, que, junto com o scio Sergey Brin, circulava pelo set durante as filmagens. Para uma comdia, essa proximidade com seu objeto  fatal. A empresa que est no centro da histria ficou resguardada de qualquer stira (nunca, jamais se aventa, por exemplo, a possibilidade de que todo aquele ambiente ldico seja um expediente para manter os funcionrios por mais tempo no local de trabalho). Os protagonistas no so bem os atores, mas as marcas do Google  do Gmail ao YouTube  que desfilam pela tela. S faltava ouvir no meio do filme um slogan do tipo "a empresa que faz com que a vida das pessoas seja melhor". Ops, nem isso faltou: a frase aparece na boca de um dos personagens.
BRUNO MEIER


5. VEJA RECOMENDA
DVD
PORTAL DO INFERNO (JIGOKUMON, JAPO; 1953. VERSTIL)
 No sculo XII, Kesa, uma dama da corte de Kyoto, se faz passar pela irm do imperador durante uma rebelio. Quase perde a vida pelo gesto de lealdade  mas  salva por Moritoh, um samurai rude e de baixa extrao, porm grande guerreiro. Quando  chegada a hora de recolher sua recompensa, Moritoh no tem dvida sobre o que quer: Kesa como esposa. Os obstculos so grandes: o heri  informado de que a dama  casada com outro samurai, este de famlia aristocrtica  e a prpria Kesa diz com todas as leiras a Moritoh que  feliz com o marido e nunca o deixar. Moritoh, no entanto, no desiste. E,  medida que sua obsesso vai se tornando mais e mais febril, mais ele empurra todos os participantes desse drama para a tragdia. Premiado com a Palma de Ouro em Cannes e com um Oscar de produo estrangeira, este clssico do diretor Teinosuke Kinugasa (ele prprio um ex-ator)  uma autntica raridade e um item de colecionador: apesar da interpretao exagerada de Kazuo Hasegawa como Moritoh, que s vezes quase faz o caldo desandar,  um hbrido estranho mas poderoso das tradies cinematogrficas ocidental e japonesa.

DISCOS
MODERN VAMPIRES OF THE CITY, VAMPIRE WEEKEND (LAB 344)
 O estilo deste quarteto americano foi definido certa vez como "Upper West Side Soweto". O epteto, que une o bairro mais chique de Nova York com a vizinhana mais desassistida da frica do Sul no perodo do apartheid, nasceu porque o Vampire Weekend fazia um hbrido de rock alternativo com guitarras inspiradas na juju music africana, tudo com letras que evocam ambientes universitrios e da classe alta americana. Modern Vampires of the City, o terceiro trabalho do grupo, traz mudanas pontuais. O Vampire Weekend ainda faz msicas animadas (qualidade que fica explcita em faixas como Everlasting Arms, com sua bela introduo de cordas, e Diane Young), mas se preocupa em ir alm das pistas de dana. Hannah Hunt traz uma melodia melanclica ao piano, ao passo que Siep casa batidas inspiradas no hip-hop com intervenes de cravo. Outra cano impressionante  Hudson, que fala um tanto da histria de Nova York, em meio a batidas marciais, uma bateria calcada no drum'n'bass, e coro e piano que esto mais para os sales de Viena do sculo XVIII do que para a frica.

MUNDO DE PIXINGUINHA, HAMILTON DE HOLANDA (NATURA MUSICAL)
 Este disco  muito mais do que um trabalho de releitura do cancioneiro de Pixinguinha (1897-1973). O bandolinista carioca Hamilton de Holanda recria onze msicas do compositor, acompanhado por alguns dos melhores instrumentistas da msica brasileira e do jazz internacional  entre eles o trompetista Wynton Marsalis, os pianistas Chucho Valds, Stefano Bollani e Mrio Laginha e o acordeonista Richard Galliano. O lbum encontra um feliz ponto de equilbrio: embora no alterem a estrutura meldica das canes de Pixinguinha (descaracterizar obras-primas como Lamentos e Rosa seria um crime), Holanda e seus convidados encontram espao para improvisaes  como as intervenes do trompete de Marsalis em Um a Zero e o piano de Bollani e Laginha em Cano da Odalisca e Rosa. Os convidados tambm ajudam a conter o excesso de virtuosismo de Holanda, que por vezes torna a audio de seus CDs-solo um tanto exaustiva. O bandolinista, no entanto,  timo compositor, como mostra em Capricho de Pixinguinha, a nica faixa indita do lbum, na qual duela com o virtuose pianista  e tambm parceiro ocasional  Andr Mehmari. 

LIVRO 
CIDADES DE PAPEL, DE JOHN GREEN (TRADUO DE JULIANA ROMEIRO; INTRNSECA; 368 PGINAS; 29,90 REAIS OU 19,90 NA VERSO ELETRNICA)
 O americano John Green  uma estrela do disputado mercado de livros para adolescentes e jovens. Sua sensibilidade literria coloca-o em um patamar distinto daquele ocupado pela maioria de seus pares. Sabe retratar as angstias extremas da adolescncia com humor e inteligncia. O livro consagrador de Green  A Culpa  das Estrelas, drama sem concesses sentimentais sobre um casal de adolescentes que sofre de cncer. Cidades de Papel, embora s agora lanado no Brasil,  anterior. Seu heri  Quentin, adolescente que se sente mais  vontade em um jogo on-line do que em uma festa. Certa noite, Margo, a garota de seus sonhos, leva-o a participar de um trote contra o namorado que a traiu. Quentin imagina estar comeando uma nova fase na relao com Margo. S que, no dia seguinte, ela no vai  escola: est desaparecida. Green  um autor preocupado em seduzir e formar leitores de verdade: as pistas para o paradeiro de Margo partem de um exemplar de Folhas de Relva, clssico do poeta americano Walt Whitman.


CINEMA 
O VERO DO SKYLAB (LE SKYLAB, FRANA, 2011. DESDE SEXTA-FEIRA EM CARTAZ NO PAS)
  1979, o satlite Skylab saiu de rbita e est para despencar sobre a Terra, e uma famlia numerosa e ruidosa se rene em uma casa de campo na Bretanha para celebrar o aniversrio da av. Albertine (Lou Alvarez), de 11 anos, est angustiada com a possibilidade de que o artefato lhe caia sobre a cabea:  como ela manifesta todas aquelas apreenses da entrada na adolescncia. No correr desse longo dia de vero, os pais e mes vo comer (muito), beber (mais ainda) e ora brigar, ora confraternizar  quando no ambas as coisas ao mesmo tempo. As crianas e adolescentes, por sua vez, vivero um sem-fim de experincias. Como ficar boquiabertas com os segredos postos  vista numa praia de nudismo, salvar um tio idoso de uma tentativa de suicdio, ir a um bailinho e viver paixes to instantneas quanto impossveis. Despretensioso e at casual no seu encadeamento, o filme dirigido pela atriz Julie Delpy (que faz a me esquerdofrnica de Albertine) de incio soa estridente, mas pouco a pouco conquista pela naturalidade das situaes e das interpretaes e pelo afeto que a diretora dedica a seus personagens. 


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. A Culpa  das Estrelas.  John Green. INTRNSECA
2. Inferno.  Dan Brown. ARQUEIRO 
3. O Silncio das Montanhas.  Khaled Hosseini. GLOBO 
4. Para Sempre Sua.  Sylvia Day. PARALELA 
5. Cidade dos Ossos. Cassandra Clare. INTRNSECA
6. Uma Longa Jornada. Nicholas Sparks. ARQUEIRO 
7. Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA
8. O Teorema Katherine. John Green. INTRNSECA
9. O Ladro de Raios. Rick Riordan. INTRNSECA
10.   O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR 

NO FICO
1. 1889. Laurentino Gomes. O GLOBO
2. Nada a Perder 2. Edir Macedo. PLANETA TERRA
3. Sonho Grande.  Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA 
4. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Mundo. Lenadro Narloch. LEYA BRASIL 
5. Getlio 1930-1945. Lira Neto. COMPANHIA DAS LETRAS 
6. A Graa da Coisa. Martha Medeiros. L&PM 
7. Carlos Wizard  Sonhos No Tm Limites. Igncio de Loyola Brando. GENTE
8. Cincia e F. Bispo Rodovalho. RECORD 
9. No faz Sentido  Por Trs das Cmaras. Felipe Neto. CASA DA PALAVRA
10. O Mnimo que Voc Precisa Saber para No Ser um Idiota. Olavo de Carvalho. RECORD

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Kairs.  Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2. Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER 
3. Casamento Blindado.  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
4. S o Amor Consegue.  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA
5. O Monge e o Executivo.  James Hunter. SEXTANTE 
6. Receitas de Dukan. Pierre Dukan. BEST SELLER 
7. Desperte o Milionrio que H em Voc. Carlos Wizard Martins. GENTE
8. Uma Prova do Cu.  Dr. Eben Alexander III. SEXTANTE
9. O Mtodo Dukan  Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER 
10. Nietzsche para estressados. Allan Percy. SEXTANTE


7. J.R. GUZZO  UM DEVER MORAL
     O servidor pblico mais detestado pelo governo da presidente Dilma Rousseff no presente momento  um tipo de ser humano rarssimo de encontrar no mundo oficial de hoje  um homem de bem. 
     Seu nome  Eduardo Saboia. Sua profisso  diplomata de carreira, em servio no Itamaraty. Tem 45 anos de idade, mais de vinte na ativa e era, at a semana passada, encarregado de negcios na Embaixada do Brasil em La Paz, na Bolvia. No h, na sua ficha funcional, nenhuma nota de reprovao. Ele acaba de ser afastado do posto, vai responder a uma comisso de inqurito no Itamaraty e tem pela frente, provavelmente, uma sucesso de castigos que promete mant-lo num purgatrio profissional at o dia em que se aposentar. No podem bot-lo na rua, como gostariam, porque exerce funo de estado e a lei no permite que seja demitido  mas entrou para a lista negra da casa e parece altamente improvvel que saia dela enquanto valores como justia, decncia e integridade continuarem vetados no Ministrio das Relaes Exteriores do Brasil. Saboia cometeu um delito que Dilma, seu assessor internacional Marco Aurlio Garcia, intendente-geral do Itamaraty, e os principais mandarins do PT no perdoam: teve a coragem de cumprir um dever moral.  
     Os fatos so claros como gua pura da fonte, e provocam, como tantos outros que vm acontecendo ultimamente, uma sensao cada vez mais desconfortvel: a de que o atual governo, de desatino em desatino, vai se tornando incompreensvel. Mais do que a to falada banalidade do mal, o que se tem no Brasil de hoje  a banalidade das atitudes sem nexo. No dia 28 de maio do ano passado, o senador boliviano Roger Pinto Mofina refugiou-se na Embaixada do Brasil em La Paz, alegando sofrer perseguio poltica por parte do presidente da Bolvia, Evo Morales. Dez dias depois, o governo brasileiro lhe concedeu asilo e passou a esperar, como determina uma das mais antigas e respeitadas prticas da diplomacia latino-americana, o salvo-conduto do governo boliviano  documento que, pela praxe, a Bolvia tinha o dever de expedir em poucos dias. De l para c j se passaram quinze meses  e durante esse tempo todo nem a Bolvia concedeu o salvo-conduto, como tinha obrigao de conceder, nem o Brasil insistiu para que o documento fosse concedido, como tinha obrigao de insistir. 
     Era uma situao que satisfazia tanto a Evo quanto a Dilma. Evo continuava a supliciar seu inimigo: confinado numa pequena sala dos escritrios da embaixada, Molina passou quinze meses sem tomar sol, sofria de problemas de sade que no podiam ser tratados ali e levava a vida de um presidirio. Os diplomatas brasileiros pediram que a Bolvia autorizasse, pelo menos, que ele fosse transferido para a residncia do embaixador. Nada feito: se deixasse o local onde estava, ameaou Evo, "o governo boliviano" no poderia garantir sua "integridade fsica". A presidente Dilma, por sua vez, ganhava a oportunidade de fazer uma viagem imaginria ao passado  no podendo mais sonhar com a ditadura do proletariado, como fazia em sua juventude, pelo menos prestava servio a algum que considera um smbolo da "resistncia ao imperialismo". O problema, para ambos, foi o encarregado de negcios Eduardo Saboia. Na simples condio de funcionrio que age em obedincia a seus princpios como ser humano, ele decidiu que no iria engolir passivamente a humilhao de servir de carcereiro. Durante 450 dias fez tudo o que pde para resolver a situao dentro das normas, do profissionalismo e da disciplina. Mandou 600 mensagens a seus superiores, implorando uma soluo. Veio duas vezes ao Brasil s para cuidar do caso. Perdeu a conta de quantas horas passou em salas de espera em La Paz. Por fim, ao constatar que o estado de sade do senador Molina tinha chegado a um ponto critico, decidiu traz-lo por conta prpria para o asilo no Brasil, numa viagem de carro que levou 22 horas entre La Paz e a fronteira brasileira. Foi no que acabou dando a recusa do governo em tratar o problema, desde seu incio, com um mnimo de lgica. 
     Nos dias seguintes, em vez de agir como presidente, Dilma se entregou a acessos de clera que no resolvem nada, a comear pela demisso do seu ministro das Relaes Exteriores. Mas seu problema  outro. Chama-se Eduardo Saboia e gente que, como ele, no tem medo de separar o certo do errado, por disporem de conscincia, coluna vertebral e compaixo.  um espelho para o qual a presidente e seu crculo ntimo odeiam olhar. Veem, nele, o que deveriam ser e no so. 


